Elevador

O despertador sempre toca às 6h da manhã. Esse é o sino que indica que a romaria até aquele lugar vai começar.
Na maior parte do tempo ele fica feliz por ter consigo tanto em tão pouco tempo.
Contudo, não tem como negar que a vida não é perfeita. Existem vários desafios.
Enquanto escova os dentes ele pensa em todas às demandas que ficaram pendentes no dia anterior.

Muitos problemas para resolver.
Por um breve segundo a ideia de não ir hoje lhe passa pela cabeça. Porém, não pode pensar em uma boa desculpa que justificasse não ir.
Saiu sem tomar café. Ainda arrumando os botões da camisa.
Ele queria começar mais cedo para poder terminar mais cedo. Uma breve ilusão de que passaria menos tempo naquele emprego.
Mochila nas costas, celular na mão, porta trancada e ele segue rumo ao elevador.
Olha de relance pelo vidro da janela.
Tem a impressão que um vizinho também está saindo.
Três minutos, foi o tempo que o elevador demorou para chegar.
A porta abriu rangendo e a luz tremeu.
Ele foi recebido com uma baforada de ar quente e estagnado da cabine de metal.
Térreo ele disse e apertou o botão para fechar a porta.

Distraído pelos próprios pensamentos ele não percebeu se mais alguém estava com ele.
O elevador dá um tranco estranho e começa a descer. Rangendo e tremendo.
Era um elevador antigo. A etiqueta de manutenção dizia que a próxima manutenção deveria ter acontecido há mais de um mês. Ele fez uma nota no celular para alertar o síndico e o zelador.

Um barulho alto de ferro raspando trouxe ele de volta para o elevador.
A luz piscou, o chão tremeu.
Com um solavanco o elevador parou e uma fraca luz vermelha acendeu.
Ele estava preso.
Entre os andares 10 e 9.
Apertou o botão de pânico, se encostou na lateral e esperou.
Uma voz metalizada disse pelo interfone:

Ouvindo isso, surgiu uma felicidade dentro dele. A desculpa perfeita acabara de surgir. Escreveu uma longa mensagem avisando que não poderia chegar no horário e enviou junto uma foto com o elevador travado.

Olhando de canto de olho, rumo ao espelho ele percebeu que mais alguém estava lá com ele.
Pessoa sem educação, foi o primeiro pensamento que ocorreu. Quem não diz “bom dia” quando entra alguém no elevador? Mas ele próprio também não disse, estava ocupado demais para com os problemas não resolvidos da última sessão de trabalho.
Era um rosto estranhamente familiar, daqueles que deixam a impressão que já foram vistos várias vezes.
Ele já tinha visto o rosto em algum lugar.
Tentava se lembrar de onde conhecia aquela pessoa.
Talvez um prestador de serviço? O sistema de ar condicionado estava com problema.
Pois bem, ele reuniu um pouco de coragem e decidiu perguntar.
Abriu a boca para falar e o interfone chiou outra vez:

O elevador chacoalha.
Esse foi o momento de maior paz naquela semana atribulada que ele teve.
Ontem ele ficara até bem tarde fazendo hora extra. Para tentar resolver um problema sem solução. Na verdade, essa era a função dele, resolver problemas sem solução.
Aqueles 10 minutos eram um oásis de calmaria no deserto da semana.
O elevador subiu alguns centímetros e a porta abriu e uma voz cansada e irritada soou de cima.

A escada foi posicionada junto a parede, mais firmeza disse o técnico irritado.
Enquanto falava com o zelador sobre as peças que solicitou para comprar e ainda não chegaram.
Ele se pegou pensando se deveria deixar o companheiro de infortúnio ir primeiro.
Afinal, qualquer minuto extra longe seria um prêmio nessa semana que insistia em não acabar.
Escada travada, elevador pronto para o desembarque. No automático ele esticou o braço em direção à escada e começou a subir.
Para no terceiro degrau.No quinto degrau ele estendeu a mão para trás, se passaram vários minutos até ele desistir, pois não haviam pegando a sua mão.
Por fim ele olhou para trás e disse, vem eu te seguro.
Olhou profundamente no espelho, viu um rosto cansado, com o cabelo desarrumado e olheiras marcadas e escuras.
Demorou até se dar conta que aquele era o seu rosto essa semana.